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Piquet em 81: Brasil X Argentina

História de uma foto

1981 – Piquet campeão
A vitória com desmaio


“Perdi o título para um garoto que limpava as rodas do meu Brabham”.
Carlos Lole Reutemann


Em 1981 Piquet era um piloto pronto para brigar pelo título mundial e o grande inimigo era o argentino Carlos Reutemann, o Lole, que já tinha passado pela Brabham, Ferrari, Lotus e estava na Williams, todos carros campeões.
A guerra entre Piquet e Reutemann pelo título de 1981, abriu no GP dos Estados Unidos em Long Beach, em 15 de março e fecharia em Las Vegas em 17 de outubro.
Embora Lole não assumisse, ele sabia que a Argentina estava preparada festejar novamente um campeão mundial, 25 anos, depois que Juan Manuel Fangio consagrou o penta em 1957.
A disputa entre Piquet e Reutemann foi eletrizante desde o início do campeonato. Na abertura, em Long Beach, Carlos Reuteman terminou em segundo e Piquet em terceiro e vieram para duas corridas de tira-teimas, os GP do Brasil e da Argentina.
Em Jacarepaguá a briga começou sensacional desde a pole position, com as feras se revezando na ponta até a tomada final, quando Piquet cravou um tempo imbatível e eles foram para a corrida ocupando a primeira fila do grid.
Chovia no autódromo carioca, mas como a previsão era de estiagem, Piquet resolveu apostar nos pneus silic, lisos, enquanto os demais pilotos largaram com pneus sulcados para pista molhada. A chuva só parou no fim da corrida, e Piquet perdeu a aposta, fechou em 11º, há duas voltas das 62 da prova que Reutemann venceu fácil.
Os argentinos festejaram a vitória ao exagero, com os jornais estampando em manchetes que “Lole ensinou o samba na passarela carioca”
Duas semanas depois, Piquet foi à forra. Cravou a pole position, ganhou a corrida e marcou a volta mais rápida, ensinando o tango em Buenos Aires. Era o prenúncio de que a briga pelo título seria entre eles e. Foram com essa convicção para a temporada européia, aberta em San Marino com outra vitória de Piquet, estabelecendo a contagem do campeonato em 25 a 22, ainda a favor do argentino.
Reutemanm chegou a abrir uma diferença de 17 pontos, 43 a 26, e liderou o campeonato até o GP da Áustria, 11ª prova do calendário. Mas no GP da Holanda, depois de mudanças na suspensão do Brabham BT49, Piquet reagiu e, com o segundo lugar no traiçoeiro circuito de Zandovoort, empatou com Reutemann em 45 pontos. Lole, então, tornou-se mal-humorado, arredio a entrevistas e visivelmente preocupado.
Faltavam três provas para fechar o ano de 1981 e próxima batalha era em Monza, no GP da Itália, uma das pistas favoritas de Piquet.
Reutemann foi o segundo do grid, enquanto Nelson Piquet, preocupado em acertar a aerodinâmica do BT49C, partiu em sexto, mas a corrida foi toda de Alain Prost, que venceu de ponta a ponta e, com 37 pontos,, oito atrás de Piquet e Reutemann, ainda tinha pretensões ao título.
No entanto, o grande personagem da corrida foi mesmo o argentino. Lole entrou em transe ao ver Piquet, que corria em segundo á sua frente, estacionar o Brabham de motor pifado na lateral da pequena reta entre as curvas de Seraglio e Ascari.
Lole comemorou a desgraça do brasileiro e agitou os braços com tal euforia para fora do carro, que quase rodou na tomada entrada da Parabólica.
Piquet, mesmo sem terminar a prova, ficou em sexto e marcou um pontinho, que seria decisivo para o título. Com a contagem em 49 a 46, a favor de Lole, eles embarcaram para a América para os enfrentamentos finais nos GPs do Canadá e Estados Unidos.
No Canadá, a disputa incendiou desde a classificação. Piquet levou a melhor e cravou a pole postion no difícil circuito de Montreal, a exíguos 148 milésimos mais rápido do que Lole, que largou ao seu lado na primeira fila. Mas ambos tiveram problemas com seus motores Ford-Cosworth, V8. O argentino fechou em décimo e Piquet, mesmo terminando uma volta atrás, do vencedor Jacques Laffite, cruzou em 5º, determinando o placar em 49 a 48 para o argentino.
Até ali a briga fora corrida a corrida, ponto a ponto, e agora ambos jogavam todas as fichas no circuito improvisado de Las Vegas no tira-teimas final. Desta vez, Lole fez a pole position e Piquet largou 4º.
Esperava-se um jogo de equipe da entre Reutemann e Alan Jones, o parceiro de Williams do argentino e o segundo do grid. Já Piquet estava só na luta, pois seu companheiro na Brabham era Hector Rebaque, dono de metade do petróleo do México, mas pobre no acelerador e partia em 16º.
Surpreendentemente Lole titubeou na largada e Jones disparou à frente do argentino. Na 10ª volta ele foi ultrapassado por Alain Prost e, na 17ª das 75 voltas da corrida, foi à vez de Piquet driblar Reutemann na disputa pelo terceiro lugar e abrir para o título mundial.
Contudo não foi fácil para Nelson Piquet Souto Maior se tornar o segundo brasileiro a consagrar-se campeão do mundo de F-1. O acerto com molas duras deixou o Brabham BT49C muito rígido, o que determinou fortes dores no pescoço no piloto, que viu-se na iminência de abandonar a batalha no meio da corrida. Mas era preciso resistir, ir até o fim, porque mesmo com Reuteman em 7º, fora da zona de pontuação, Piquet precisava, no mínimo, de um pontinho para empatar a pontuação em 49 pontos e ser campeão pelo número de vitórias – ele tinha três, contra duas do argentino.
Foi com a cabeça pesando uma tonelada que Piquet sentiu-se impotente para se manter no 3º lugar e impedir a ultrapassagem do Lotus de Nigel Mansell. Tampouco resistiu ao ataque de Bruno Giacomelli, e nem mesmo tocando roda com roda com o Alfa Romeo do italiano conseguiu manter a 4ª colocação.
A corrida ficava cada vez mais dramática para Piquet. Ele sentia náuseas, já estava difícil respirar e o pescoço doía, comprimindo o tórax. Olhou para o boxe e viu a placa sinalizando que faltavam quatro voltas. Respirou fundo, tirou do pulmão um ar difícil, que veio junto com uma dor aguada nas costas, mas sentiu-se anestesiado quando boxe sinalizou que ele tinha 1 minuto e 20 segundos de vantagem sobre Jacques Laffite, o 6º colocado.
Depois de sofridos e exatos 1h45’25”515/1000, Nelson Piquet venceu as 75 voltas pelos 3650 metros do circuito urbano de Las Vegas e tornou-se campeão mundial de Fórmula 1.
Lole fechou em 8º, uma volta atrás de Piquet, e permaneceu imóvel dentro do carro. Não tinha coragem de tirar o capacete e enfrentar o mundo, muito menos de suportar ver a Williams festejando a vitória do parceiro Alan Jones, no funeral do seu título mundial.
Poucos metros dali, os mecânicos da Brabham tentavam reanimar o novo campeão mundial, desmaiado dentro do Brabham, nº 5, depois cruzar a bandeirada gloriosa, em 5º lugar. O campeonato estava decido por um pontinho: Piquet 50, Lole 49.
Só uma hora após ter sido festejado no pódio, Piquet conseguiu falar como campeão: “Quando recebi a bandeirada, só uma coisa me vinha à cabeça: agora ninguém me tira esse título. Porém, eu não agüentaria mais meia volta, porque sentia dores terríveis. A exaustão era maior do que a emoção. Tanto que desmaiei dentro do carro”.
Mais tarde, Carlos Reutemann fez um desabafo que passou à história da Fórmula 1: Ele disse: “Perdi o título para um garoto que limpava as rodas do meu Brabham”.
Piquet soube da declaração e confirmou: “É verdade, eu lustrei as rodas do carro dele em 1974, na inauguração do Autódromo de Brasília, num grande prêmio extra-campeonato. Na época, era o única maneira que tive de participar da Fórmula 1”.

1981
Campeão: Nélson Piquet, 50 pontos; 2o C Reutemann, 49; 3o A .Jones, 46, 4o J. Laffite, 44; 5o A . Prost, 43; 6o J. Watson, 27; 7o Gilles Villeneuve, 25; 8o De Angelis, 14; 9o R. Arnoux e H.Rebaque 11; 11o E. Cheever e R. Patrese, 10; 13o D. Pironi, 9; 14o N. Mansell, 8; 15o B. Giacomelli, 7; 16o M. Surer, 4; 17o M. Andretti, 3; 18o S. Borgudd, A .De Cesaris, P. Tambay e E. Salazar 1.


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Piquet, com o Brabham BT 49,
na largada da vitória do GP da Argentina de 1981

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