Menu principal:
Memórias > arquivo
Quem é o maior campeão da Ferrari? Quem achou que é Michael Schumacher errou. O herói é Luca di Montezemolo, um especialista em tirar a escuderia de crises históricas e fazer pilotos e carros campeões.
Porém, agora ele ameaça jogar a toalha. Descontente com as novas regras da F-1 2011, o presidente da Ferrari critica o uso do Kers e a asa traseira móvel, inovações que ele considera ter tornado a F-1 artificial.
Montezemolo lembrou que o contrato da Ferrari com a FIA termina em 2012, mas alerta que a escuderia só irá permanecer na categoria enquanto o esporte contribuir para o desenvolvimento tecnológico dos automóveis convencionais de Maranello.
As declarações de Luca receberam várias críticas, todas considerando que a fala do Capo tenta desviar a atenção para o fraco desempenho da Ferrari F150º neste início de temporada.
Na verdade, Luca di Montezemolo tem outro grande desafio pela frente: o de trazer a Ferrari de volta ao topo do grid de 2011. Uma missão que marcou o seu sucesso de maior vencedor da história da Rossa.
O primeiro desafio de Luca aconteceu em 1974, ao ser chamado para tornar-se o diretor esportivo da Ferrari com a obrigação de reconquistar a hegemonia da F-1, perdida havia dez anos, desde que o inglês John Surtees sagrou-se campeão em 1964.
Montezemolo assumiu e, já naquela temporada, a Ferrari só perdeu o título com Clay Regazzoni para o McLaren de Emerson Fittipaldi na última corrida. Em 1975, ele viabilizou a construção da 312T, a máquina de câmbio transversal, que propiciou o primeiro título mundial a Niki Lauda e a supremacia dos bólidos italianos na F-1.
Luca deixou o cargo em 1977, comemorando um tricampeonato de Construtores e o bi de pilotos de Niki Lauda na biografia – e com uma cicatriz na perna direita, fraturada pelo Lotus de Ronnie Peterson nos boxes do GP da Holanda.
Luca Cordero di Montezemolo, piemontês, advogado, pós-graduado pela Universidade de Columbia, Nova York, começou a carreira na Fiat em 1969, aos 20 anos. Ele é um relações-públicas nato. e se confessa seguidor do figurino de seu mestre e protetor, o falecido Gianni Agnelli, todo-poderoso presidente da Fiat, a quem substitui desde maio de 2004.
Mas antes de chegar a capo di tutti capi, Montezemolo voltou à Ferrari em 15 de novembro de 1991, dessa vez como presidente. Mais longe dos boxes e da graxa, onde aprendeu os segredos dos bastidores da F-1, Luca retornava com a mesma missão de reabilitar o Cavallino Rampante, domado num jejum de 13 anos sem títulos, desde que Jody Scheckter foi campeão em 1979.
Mais maduro, Montezemolo retornou pedindo paciência. A rigor, ia gerir um filhote da Fiat, detentora de 90% das ações da Ferrari – os outros 10% pertencem a Piero Lardi, filho de dom Enzo.
“A Ferrari”, me disse no salão oval de Maranello, em setembro de 1993, “é um patrimônio do povo italiano. Um arrebatamento diferente de outros amores nacionais, como o futebol, onde a paixão se divide entre o Milan, a Juve ou a Inter: na pista toda a Itália é Ferrari”.
Montezemolo entrou no circo decidido a seguir a filosofia do chefe Agnelli, que é a de só trabalhar com o que há de melhor no ramo. Porém, na época, mesmo para a Ferrari, o melhor do mercado era caríssimo e estava na McLaren, supercampeã pilotada por dois gênios, Senna e Prost, e na Williams, lançadora dos modelos FW de suspensão ativa. De melhor, só pôde contratar o francês Jean Todt, sumidade em gestão de equipe, enquanto preparava a alma italiana para uma abstinência de mais nove anos sem títulos.
Em 1996, Luca deu o primeiro grande lance ao contratar Michael Schumacher, já disparado o melhor do circo. Deu a Schumacher a corte técnica que o alemão exigiu, e a Ferrari, depois de 21 anos, entrava o novo milênio campeã de Construtores, inaugurando a fase mais vitoriosa de uma escuderia da Fórmula 1, com o hexacampeonato de 1999 a 2004.
Luca di Montezemolo despediu-se de Maranello para ocupar a presidência da Fiat com sete títulos de pilotos e dez de Construtores. Elevou o orgulho e a paixão italiana onde nunca estiveram e entrou para a história como o maior ganhador de títulos da Ferrari. Um a mais do que dom Enzo, seu eterno chefão.
Agora, que o barco de Maranello está fazendo água, Luca terá que tomar o leme para que a Ferrari não naufrague nesta temporada. Pois abandonar a F-1 seria uma demonstração de fragilidade, característica que não faz parte da biografia de Montezemolo.
Montezemollo regendo a orquesta da Ferrari em 2004