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História de uma foto > arquivo
Trintignant, vitória feita com sangue
Aquele GP de Mônaco foi a segunda corrida da temporada de 1955 e a 43ª da Fórmula 1. A grande atração era o enfrentamento entre dezoito máquinas italianas: cinco Ferrari, oito Maserati e cinco Lancia, contra o quarteto das voadoras Flechas Prateadas germânicas, da Mercedes-Benz.
Maurice Trintignant já sabia que não seria fácil posicionar bem a sua Ferrari 625-2.5, no grid, por isso não se decepcionado com a nona posição na largada. Lá na frente, dominando a primeira fila, estava o trio de favoritos formado pelo pole position Juan Manuel Fangio, Stirling Moss, ambos a bordo de Mercedes-Benz W196, e Alberto Ascari de Lancia D50.
Mas o simpático e corajoso Pétoulet, foi à luta. Pétoulet – cocô de rato, em francês – foi um apelido que Trintignant ganhou no GP da Libertação, disputado em Bois de Boulogne, em Paris, em 1945. Aquela era a primeira corrida de carros grand prix após a Segunda Guerra Mundial, mas Trintignant não largou por causa das fezes dos ratos que impregnaram o tanque do seu Bugatti na longa inatividade. Jean-Pierre Vimille, piloto francês, então apelidou o amigo de Pétoulet, apodo que ele assumiu, carregou pelo resto da vida e com o qual batizou aos vinhos chateau que produziu após abandonar o automobilismo.
O GP de Mônaco, naquela fase romântica da F-1, era disputado em 100 voltas e 318 quilômetros, completados em 3 horas de sacrificada competição. Portanto, era preciso, além de um carro forte e competitivo, um piloto rápido e técnico, para enfrentar as armadilhas do sinuoso circuito urbano do Principado, e uma pitada de sorte.
Maurice Trintignant teve tudo isso e muita coragem. Ele não desistiu de competir, nem após presenciar a morte do irmão Louis na pista e tampouco depois do terrível acidente que sofreu no GP da Suíça, de 1948. Naquela corrida, ele voou fora do carro, foi declarado clinicamente morto durante 1 minuto e meio, caiu em coma, mas recuperou-se em uma semana. Já no GP de Mônaco de 1955, Trintignanat precisou sangrar para consumar duas primeiras vitórias históricas na Fórmula 1: a sua e a de um piloto francês.
Ele largou muito bem. Aproveitou as confusões nas freadas da primeira volta entre os Lancia de Alberto Ascari, Eugenio Cstellotti e Luigi Villoresi, para subir de nono a quinto colocado. Depois poupou a máquina e o físico até o meio da prova, preparando-se para ultrapassar a Ferrari de Giuseppe Farina, a Maserati de Jean Behra. Na 49ª volta, quando Alberto Ascari errou uma tomada de curva e caiu no mar, e a Mercedes-Benz de Juan Manuel Fangio quebrou a transmissão, o francês assumiu a ponta.
Trintignant venceu, mas cruzou a bandeirada depois de 2 horas de 58 minutos, ensopado de suor e quatro quilos mais magro. A palma da mão direita estava em carne viva, dilacerada pelo esforço das 4760 trocas de marchas, executadas no câmbio endurecido da sua Ferrari durante a prova. Foi o único piloto a completar as cem voltas; uma à frente até do quinto colocado, 14, do oitavo, o parceiro de Ferrari, Piero Taruffi, e 19 da Mercedes-Benz de Stirling Moss, o nono e último classificado.
Maurice Trintignant morreu aos 87 anos em fevereiro de 2005. Ele só venceu mais uma corrida nos 82 grandes prêmios que disputou, entre 1950 a 1964, ironicamente na mesma pista, mo GP de Mônaco de 1958. Porém, ficou famoso pelo primeiro triunfo, não só pelas cicatrizes eternas na mão, mas por um outro fato pitoresco que nos contou em Monte Carlo, em 1995, no 40º aniversário da primeira vitória:
Assim que ele parou a sua Ferrari no boxe, quase imobilizado pela fadiga, o médico do grande prêmio assustou-se ao ver a perna direita do macacão do piloto encharcada de sangue e apressou-se em pedir uma maca para transportá-lo ao hospital. O que o doutor não sabia, é que aquelas manchas foram causadas porque Trintignant enxugava o sangue da mão ferida pela alavanca do câmbio. Pétoulet ainda divertiu-se com a confusão, implorando ao médico que não lhe amputasse a perna.
Maurice Trintignant com a Ferrari 625 da vitória no GP de Mônaco de 1955