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14 - O GP do Presidente

Memórias > Série: Wilsão o Homem e a Legenda

A 1ªcorrida na Dutra


Depoimento:

“O Grande Prêmio Getúlio Vargas foi uma corrida que eu inventei em 1951, aproveitando a inauguração da primeira pista
asfaltada da Via Dutra, a Rio-São Paulo.

Eu tinha uma pendenga com o Automóvel Clube do Brasil e resolvi organizar uma prova de estrada mais longa do que a
Washington Luís, que eles tinham patrocinado. Queria, no mínimo, triplicar os 1 300 quilômetros de ida e volta de São Paulo
até São José do Rio Preto, passando por outras cidades do interior paulista que fora o itinerário da Washington Luís.

O plano inicial era fazer uma maratona de automóveis ligando São Paulo a Recife. A prova partiria de Pernambuco, com um
trecho pelo litoral e outro pelo interior, fechando na frente da Rádio Panamericana que patrocinaria a loucura.

Eu fiz esse traçado três vezes. O último foi com uma carreteira Nash – carro popular na época – emprestada pelo Chico Landi,
junto com Gilberto Machado, o Contra-Pino, representante do Automóvel Clube, por imposição legal.
Foi uma aventura, não existia asfalto na Rio-Bahia, era tudo terra. Parava em todos os estados em busca de apoio. O
político que me tratou melhor foi o Arnon de Mello, pai do Collor. Quando eu passei em Alagoas ele me recebeu
maravilhosamente bem e colocou tudo à nossa disposição e fez questão de instituir um prêmio.
Em Pernambuco a ideia também foi bem recebida e na Bahia o Juraci Magalhães, governador na época, também foi favorável. Mas
em outros estados e cidades que eu passava, não era possível obter ajuda. Encontrávamos uma miséria desgraçada. Em Jequié,
Feira de Santana, Vitória da Conquista, na Bahia, houve entusiasmo pela corrida, mas teve prefeituras que se eu conversasse
mais dez minutos com o prefeito tirava dez cruzeiros meus e dava para a cidade.
Na volta fiz um relatório – que ainda tenho cópia – que era um diário de bordo, onde eu coloquei a quilometragem feita à
cada dia, e tudo o que acontecia detalhadamente, nos vários trechos.
Resumindo, a boa vontade não era suficiente para vencer as dificuldades e então resolvemos estudar um outro percurso. Foi
então que decidimos organizar a corrida só no sul e optamos por um quadrilátero cuja primeira etapa seria São
Paulo-Uberaba, Uberaba-Belo Horizonte. Faríamos uma parada na capital mineira e depois a segunda etapa partiria de Belo
Horizonte-Rio e Rio-São Paulo, pela Dutra. O apoio do Jucelino Kubischeck que era governador de Minas e de Adhemar de
Barros, de São Paulo, foram decisivos para a corrida.
A Washington Luís, a primeira corrida de estrada do Brasil, que antecedeu o Grande Prêmio Getúlio Vargas, foi fácil de
cobrir. Eu acompanhei de avião militar, pilotado pelo Major Villaforte, no qual íamos eu e um operador da Rádio
Panamericana.
Na Getúlio Vargas instalamos vários pontos onde eu relatava a passagem dos carros e a situação da corrida. Em cada cidade
tinha um posto fixo da Panamericana e em intervalos de 100 quilômetros, outros postos irradiavam as etapas. Além desse
esquema, uma perua móvel seguia a competição enviando boletins sobre abandonos ou outras ocorrências. Digamos que era uma
cobertura similar à corrida de São Silvestre que irradiávamos na década de 50.
A dificuldade no GP Getúlio Vargas foi indicar o itinerário. Como não havia outro meio eu peguei uma caminhonete da rádio e,
com ajuda da minha mulher, a dona Juzy, fomos colocando flechas em toda o percurso. Fincávamos caibros e sarrafos pintados
de branco indicando o caminho.
Antes da largada nós fornecemos um livreto, para todos os 43 concorrentes, com o trajeto dos quase quatro mil quilômetros
do grande prêmio. Uns dias antes a prefeitura da cidade era avisada da passagem da corrida e as estradas eram fechadas
durante a travessia.
Percorri três vezes o circuito da corrida antes, mas me emocionei na viagem que fiz depois. A sinalização continuava lá,
com as flechinhas brancas, escrito “Grande Prêmio Getúlio Vargas, realização rádio Panamericana e Automóvel Clube do
Brasil”. Não roubaram uma plaquinha, nenhuma estaca.
Foi uma corrida nos moldes que se disputa os atuais ralis. Nós chamávamos de Carreteira por causa da influência da
Argentina, que fazia muito esse tipo de prova.
Olha, foram cinco dias de muito trabalho, com o pouco descanso na primeira etapa de Belo Horizonte e depois no Rio de
Janeiro, no mais era pau puro.
Os mecânicos nem tinham folga. A corrida era disputada por uma dupla de piloto e mecânico que também desempenhava o papel do
navegador.
A última etapa, já pela Via Dutra, foi espetacular. Os concorrentes partiram do parque fechado de São Cristóvão, subúrbio
do Rio de Janeiro, para São Paulo. Até esse 2003 permanece o recorde do falecido Aristides Bertuol, com uma carreteira
Chevrolet. O piloto gaúcho completou, da saída do Rio, que era no início da Dutra, onde era a largada, até a bandeirada em
Guarulhos, em 2 horas e 56 minutos, os 405 quilômetros do asfalto novo.
Chico Landi vinha liderando a corrida até a Serra das Araras, mas seu Nash quebrou e ninguém mais alcançou o Bertuol.”

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