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Rosberg, um campeão no Fitti 1

Memórias > arquivo

Keke Rosberg foi campeão mundial em 1982, com apenas uma vitória na temporada, no GP da Suíça, disputado no autódromo de Dijon-Prenois, na França. Atualmente ele vê o seu filho Nico tentar a mesma façanha a bordo de um Mercedes.

Aqui, lembramos a passagem do finlandês pela Fitti 1 que ficou na história da F-1.

Keke Rosberg, dos destroços ao pódio.

Em 1980, quando Wilsinho contratou Keke Rosberg, um finlandês que tinha sido piloto da Theodore Racing, da ATS e da Wolf, nas temporadas anteriores, surpreendeu muita gente. Até Emerson perguntou se ele tinha certeza do que estava fazendo. Wilsinho tinha. Eis a história que ele conta sobre Rosberg e o terceiro lugar conquistado pelo finlandês com o Fitti F-1 no GP da Argentina de 1980:
"Eu queria ter um piloto de alto nível na equipe. Embora o Keke não tivesse grande experiência na F-1, ele era o homem que eu procurava. Nós chegamos para o GP da Argentina e já no primeiro treino ele marcou o ótimo tempo de 1'46"75. Foi dois segundos mais veloz que o Emerson e ficou sempre entre os cinco primeiros do grid. Nada mau para uma estréia, principalmente para quem mal conhecia o carro. Fomos para a segunda sessão de treinos de sexta-feira e ele continuou sendo um dos mais rápidos, mas no final da classificação deu uma baita batida. Destruiu a máquina. Nós tínhamos levado três carros para aquela corrida, por isso entreguei o reserva para o Keke treinar no sábado.
"Mas, como eu era calejado em grandes prêmios, escalei dois mecânicos para desmontar o carro que o Keke tinha destruído. Mandei eles retirarem e revisarem os componentes que estavam bons e separá-los, já que o monocoque tinha entortado e não poderia mais ser usado. Porém havia 80% de partes e peças intactas. Fizemos um exame com uma tinta que detecta trincados e guardamos aquelas partes prontas e limpas para o caso de termos que usá-las nos outros dois carros.
"No sábado o Keke Rosberg se classificou bem, com o carro reserva. Lembro que o Emerson me perguntou que motor tinha no carro do Keke e admirou-se quando eu falei que era um igualzinho ao dele. O Emerson insistiu: 'Tem certeza?' Claro que eu tinha, mas ele só se convenceu quando eu lhe mostrei as fichas da Cosworth, com o certificado da potência dos motores. Um estava com 492 e o outro com 495 hp, e 3 hp em 490 não significavam nada.
Concluímos então que o Keke estava forte e que tínhamos dois carros bem preparados para a corrida. Naquela época, porém, havia um treino de 45 minutos no sábado à tarde, e nesse treino o Keke deu outra cacetada forte e destruiu o carro que já era o reserva.
O Emerson ficou fulo da vida e reclamou: 'De que adianta ser tão rápido e destruir um carro por dia?' Mas quem ficou numa situação estranha fui eu. Como já tínhamos desmontado o primeiro carro que o finlandês batera, ou o que tinha sobrado dele, mandei fazer a mesma coisa com o carro reserva. Em seguida, dividi a equipe de mecânicos. Coloquei só dois para a revisão do carro do Emerson, que estava bem, e os outros foram trabalhar nos dois carros batidos, para tentarmos fazer um para o Keke Rosberg.
"Eram 5 horas da tarde em Buenos Aires e, como já sabíamos que iríamos varar a noite trabalhando, eu organizei a empreitada. Avisei o pessoal: 'Às 8 horas tem janta, à meia-noite lanche e às 4 horas da madrugada outro lanche reforçado. Tem chuveiro e toalhas à disposição, no boxe, portanto mãos à obra'.
"O primeiro trabalho foi consertar o segundo chassi que o Keke bateu. Felizmente não tinha entortado. Sofreu apenas um afundamento em cima do tanque de combustível, que foi trazido à forma normal no martelo, mas tivemos que retirar e recolocar o reservatório de gasolina. E, como não foi afetado nenhum ponto sensível do monocoque, pudemos acertar a geometria sem muitas dificuldades e colocá-lo no gabarito.
" Às 11 horas da noite havia um quebra-cabeça de peças de dois carros espalhado no chão do boxe. Aí partimos para a seleção e ainda usamos as peças de reserva sobressalentes que tínhamos na montagem do terceiro carro para o Keke.
"Foi um esforço brutal, mas às 8h30 do domingo colocamos as rodas no carro e acoplamos o motor. Uma hora antes do warm-up, às 11 horas, fizemos o alinhamento, sem problemas, e botamos o motor para funcionar. Foi aquele 'ufa'! Agora faltava o Keke ir para a pista. Ele saiu e ficou todo mundo na expectativa, sabendo que teríamos que fazer os acertos complementares para a corrida. Ele deu duas voltas na pista e, mal chegou ao boxe, pulou do carro e foi cumprimentar uma por uma as pessoas que trabalharam naquele protótipo. Depois veio falar comigo e disse: 'Eu sei a destruição que causei. Fui dormir ontem duvidando que iria correr hoje. O trabalho de vocês foi fantástico. E esse carro em que andei agora está igual ao que pilotei na classificação. Parabéns'.
"Aí tive a certeza de que todo aquele trabalhão que passamos para que o Keke corresse o GP da Argentina motivou muito o finlandês. Tanto que fez uma corrida fabulosa, retribuindo a dedicação da equipe técnica, que colocou na pista um carro feito com as peças retiradas de dois destroços.
"O terceiro lugar deu moral ao nosso time. Afinal, chegamos atrás apenas do Alan Jones e do Nélson Piquet, com a Williams e a Brabham, justamente os pilotos e carros que disputaram o campeonato de 1980 - Jones foi o campeão e Piquet o vice. A Fórmula 1 é assim, um trabalho dividido em três partes iguais: a do carro, a da equipe e a do piloto. Nenhuma delas ganha nada sozinha."


Keke com o Fitti 1 no GP da Argentina de 1980

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